Sempre fui um apaixonado pela leitura e de uns anos para cá, venho me tornando mais e mais admirador da escrita – como atesta este blog, aliás. Contudo, existem de minha parte sérias limitações gramaticais que tenho buscado superar.

Uma das melhores formas de corrigi-las, inclusive, é escrevendo! Assim, além de trabalhar em uma ficção que me parece cada vez mais um trabalho infindável, escrevo também pequenos contos que pretendo divulgar no “Mundo de Jack” esporadicamente a partir de agora.

Segue abaixo o trecho do primeiro deles; que receberá logo mais pelos menos dois textos complementares fechando a estória:

Babeuf

O senador abre a porta do seu apartamento oficial e entra sem maiores problemas. Está cansando, visivelmente cansado. Durante todo o dia, manteve-se ocupado com a alta cúpula do seu partido; discutindo a sua provável indicação para o Ministério da Defesa. Considerou as possibilidades, os ganhos e perdas, o poder que tal indicação lhe oferecia.
Um homem com seus cinquenta e dois anos de idade, no terceiro mandato parlamentar. Fora antes disso prefeito da capital e governador do estado. Experimentado, pragmático, oportunista. Sonha secretamente chegar a presidência da República. Sem limites e sem escrúpulos, está no seu quarto partido político. Para chegar onde chegou, praticou todos os possíveis crimes eleitorais conhecidos. Suspeita-se ainda de seu envolvimento na morte de um conhecido jornalista.
Contudo, nada disso o detém. Inabalável, descobriu há tempos o segredo do poder: subornar as pessoas certas. Possui favores na corregedoria, na Polícia Federal, no Supremo Tribunal Federal, no tráfico, no alto círculo empresarial, na imprensa e na Igreja.
Ao adentrar no apartamento, dirigi-se até o centro da sala de estar, retira os óculos e após um breve suspiro, coça os olhos. De relance, observa a existência de um envelope em cima da mesa. Imagina que seja uma correspondência trazida de última hora por um dos seus assessores.
- Seja o que for, pode esperar… Peça consigo mesmo, tirando agora o paletó.
Resolve tomar um banho. A ducha quente golpeia as suas costas lhe dando uma agradável sensação de relaxamento. Com as duas mãos apoiadas na cerâmica do banheiro, permanece imóvel por alguns segundos. Ensaboa-se, enxagua-se, veste o roupão exclusivo de parlamentares como ele e decide que uma dose de uísque completa o seu ritual privado de eliminação do stress.
Pega o envelope, senta em uma das duas poltronas na sala da televisão, coloca o seu copo com uísque Passport no braço da poltrona e começa a abrir o documento. Estranha a inexistência de qualquer informação visível sobre o conteúdo interno. O envelope em si, trata-se de um papel peso quarenta em tom alaranjado. No canto esquerdo no fundo do envólucro ele sente o que parece ser um broche promocional.
É um broche mesmo. Um broche branco, circundado por três faixas pregueadas nas cores azul, branca e vermelha. Dentro ainda, um papel A4 cuidadosamente dobrado. Ao desdobrar a folha, um terrível calafrio se alastra por todo o seu corpo. Sente uma pontada gélida e desagradável no coração.
O conteúdo da carta, escrito em uma caligrafia belíssima diz-lhe o seguinte:

“Boa noite canalha,

Visto que todos os esforços – supostamente republicanos – de afastá-los do poder falharam lamentavelmente, não me resta outra alternativa, se não a de matá-lo. Isso mesmo, matá-lo. Tirar sua vida em troca das milhares de vidas que você destruiu nestas suas quase três décadas de experiência política.
Sei que não é uma troca justa… Sei sim. Você mereceria algo muito pior. Mas como tal coisa não existe, fiquemos com a solução elementar destinada aos crápulas como você. Um traidor do povo, da justiça, um lixo humano que todos os dias pisa em cima da ética, da hombridade.
Se quisesse, poderia dar cabo da sua existência agora mesmo. Mas vou ser benevolente. Dar-te a chance de uma vez na vida vós tomares a decisão certa. Vou lhe dar o prazo de uma semana para renunciar o seu mandato e jamais concorrer a nada relativo ao serviço público. Nada!
Faça isso e viverás. Caso o contrário, recomendo que coloque todos os seus negócios pessoais em ordem…”

Continua…