Após ler a carta inesperada, o senador ficou completamente atordoado; pensamentos dispersos e confusos desnorteavam a sua mente: “Quem me mandou isso?”, “Como entrou aqui?”, “O que ele sabe?”.

- Mário! O Mário sabe! Exclamou consigo. Estava confuso.  Mas o seu principal assessor e responsável pela triagem das correspondências, certamente saberia o remetente da carta. Ademais, era uma das pouquíssimas pessoas que tinham uma cópia da chave do seu apartamento, justamente para esse fim.

Pegou o celular no bolso esquerdo do paletó e ligou imediatamente para o seu subordinado. Mas para sua completa perplexidade, o assessor revelou total desconhecimento de ter lidado com qualquer documento incomum nos últimos dias.

- Você tem certeza? Insistia.

“Sim excelência; plena certeza”. Ouviu a resposta pelo fone.

- Inferno! Inferno! Como isso foi me acontecer logo agora?! Berrou; perambulando pela sala após um verdadeiro salto da poltrona.

“A polícia fede… Não, os federais não podem saber de nada. Ninguém pode saber de nada!? Refletia.

Ele considerava com razão que se o conteúdo da carta fosse tornado público a Polícia Federal iria investigar as duas linhas sugeridas: a busca do autor dos escritos e as menções a vida corrupta do senador.

- Inferno! Inferno! Repetia.

- Mas e se disser que foi um telefonema anônimo? Isso! Uma ligação com ameças de morte! Mas espere! Os filhos da puta vão checar as chamadas recebibas… Malditos! Malditos! Inferno! Merda! Merda!

A confusão mental sugeria um homem acuado. Há quanto tempo o senador Reinaldo Galdeiros não se sentia assim? Aflito, ansioso, fora de si. Durante anos planara perante a lei, perante a ética. Ora, como se tais coisas existissem na política; considerava.

Mas uma ameaça de morte; uma escrita, concreta. Ele até recebera outras antes. Mas esta parecia tão mais séria. Acima de tudo porque vinha de alguém desconhecido. Se fosse de um desafeto seu… Nada disso. Apenas uma carta, uma carta sinistra.

“Maldição!” Exclamava.

Faria então o óbvio: Iria reforçar a segurança, exigir mais profissionais encarregados do zelo de sua vida. Isso. Era isso que iria fazer. E mais, restringir seus movimentos ao longo de toda a semana.

Afinal estava para ser nomeado ministro. Não poderia ausentar-se de Brasília. Então, que ficasse no apartamento mesmo. Do apartamento para o gabinete, do gabinete para o apartamento.

“Isso! Que se dane esse filho da puta!” Pensou relativamente mais relaxado. Não renunciaria a nada. Absolutamente nada. Esse era o pedido mais infantil que recebeu na vida. Considerou.

Solicitou uma inspeção no seu apartamento. Algo incomum, na verdade. Nada foi encontrado. Nenhum sinal de arrombamento, de qualquer violação que fosse. Nada. Por fim exigiu que dois profissionais do condomínio oficial passassem a noite de vigília na porta de acesso. A única. Pediu ainda que a fechadura fosse trocada imediatamente na manhã seguinte, e que todas as cópias das chaves lhes fossem entregues. Estranho, tudo muito estranho para os envolvidos.

Contudo, Galdeiros não era o primeiro dos políticos com pedidos excentricos; e nem seria o último…

A semana começou e o senador era um homem completamente diferente. Distraído, alheio a todos, com olhar vazio, perdendo constantemente o raciocínio. Estava preocupado. Temia por sua vida. Mas sabia que procurar qualquer pessoa seria uma atitude temerária. Poderia perder muito com isso. Poder, prestígio, status. Não, nada disso. Seria apenas cauteloso. Apenas isso. Ademais, deveria ser trote, a ação de um maluco.

Todos os cinco dias, de segunda a sexta pareceram se arrastar em horas intermináveis. Na sexta, decidiu que partiria para o interior do estado que representava. Disse aos líderes do partido que estava indo “encontrar-se com articuladores locais”. Mentira, queria apenas ir para casa. Na sua casa.

Partiu ao cair da noite de sexta e chegou ao aeroporto do estado onde nasceu por volta das 21:35 horas. Foi direto encontrar a sua família. Seu motorista, que o esperava partiu imediatamente. Chegou em casa às 23:00 horas. Foi recebido por sua esposa. Seu filho mais velho tinha saído com os amigos. A caçula da família o encontrou e trocou um forte abraço com ele minutos depois de sua chegada.

Por um momento esqueceu da ameaça de morte. Teve uma manhã de sábado tranquila. A tarde recebeu alguns amigos e resolveu permanecer recluso a noite.

Era quase meia noite do sábado para o domingo. Sem sono, foi até o seu escritório. Sentou-se na cadeira a frente da escrivaninha; iria checar os emails. Estava relaxado agora.

De súbido uma sombra grotesca saltou por trás dele e envolveu seu pescoço com um fino cabo de aço, apertando-o tenazmente. O desespero saltou-lhe aos olhos. Estava diante da morte! Tentava em vão gritar, respirar. Contorcia-se. Começou a sentir uma frieza se apoderando de todo o seu corpo. As pontas dos dedos dormentes. Por fim, desfaleceu. Estava morto.

A figura assustadore limitou-se a retirar o fino fio do seu pescoço; deixando marcas profundas de um enforcamento e a colocar um pequeno bilhete contendo a mesma caligrafia da carta anterior.

Nele, lia-se: “Este foi apenas o primeiro…!