Há milhares de anos, um hominídeo extraordinário (ou terá sido uma mulher?) serviou-se de uma planta em chamas (certamente decorrente de um incêndio natural) e pensou nas inúmeras possibilidades de seu manuseio. Talvez tenha observado inicialmente como o fogo era útil para aquecer o ambiente e como era uma arma eficaz contra o ataque de diversas feras pré-históricas. Mais tarde, descobriria as propriedades da chama na arte culinária. Com o fogo, pode ampliar de forma significativa o seu cardápio (serviu-se de tubérculos cozidos, por exemplo).
E claro, foi muito mais além disso. Ele próprio (ou ela) aprendeu a produzir o fogo! E domesticou animais e plantas; produziu esculturas, adereços, vestimentas, habitações.
Mas claro, as coisas nem sempre davam certo. Acidentes, revezes, frustrações, dor, sofrimento; o homem não podia controlar tudo. Tivesse percebido há tempo que isso é exatamente um dos princípios que regulam o universo… O acaso. Mas do acaso, o homem pouco sabia. Assim, ou para o infortúnio ou para a glória, uma “força” maior certamente deveria estar atuando.
Isto se torna evidente na leitura dos textos antigos. Em Ilíada, por exemplo, não são os homens, os envolvidos nas grandes reviravoltas da guerra, mas sim um ou outro deus de seu panteão…
Como fomos infeliz em nossas elaborações mentais. Criamos os deuses! Surgia então, a mais devastadora das prisões da mente: a religião. Desde então, religião e Estado, religião e tabu, religião e medo, religião e tortura, têm andado de mãos dadas.
Não por acaso, todo governante antigo, quando queria fazer valer suas leis, atribuias-lhe a prerrogativa última da vontade divina. Foi assim com Aquenatom e seu hino ao Sol, Hamurabi e seu Código, Licurgo e suas Leis, Moíses, Dário e Alexandre. A “vontade dos deuses” justificava tudo!
O homem era mais e melhor quando não tinha qualquer deus sobre a sua cabeça.
Certa vez, o grande pensador Nietzsche perguntou-se como os povos germânicos caíram nas garras do cristianismo… Fato que lamentava profundamente. Ele não o soube, porque não existiam as informações que dispomos hoje.
Não foi a apresentação de uma mensagem “libertadora” e “nova” que tornou os povos germânicos cristãos. Mas sim, exatamente, algo que estas populações há muito conheciam. As noções de caridade, cuidados com as crianças, os idosos, as viúvas, os deficientes e os enfermos eram amplamente difundidas em seu direito consuetudinário.
Os germânicos também tinham personagens semideuses em sua mitologia. Jesus não foi visto de forma alguma como alguém extraordinário. Mas sim, reconhecido como um personagem a altura de um Thor.
Penso na necessidade dos deuses atuais na vida de muitas pessoas, como um tipo de amparo psicológico, uma ferramente para a vontade, a qual muitos recorrem. Afinal, onde pedimos por deus? Em qual situação problema? Normalmente em momentos onde nos sentimos desamparados e sozinhos.
Sobre a vida, sobre viver ou morrer, sobre ter ou não ter, sobre ser ou não ser, tenho comigo a seguinte fábula:
Um sapo foi atrevessar a estrada; mas para seu infortúnio, neste mesmo momento, um carro cruza o seu caminho. O sapo é então esmagado.
Qual o significado disso? Por que o sapo morreu? Por que o carro teve de passar exatamente nesta hora? O sapo foi o culpado por provocar a sua própria morte? Foi o carro o grande responsável pela tragédia que se abateu sobre o sapo? Existiu aí a mão de um pesado destino?
E aqui, o xis da questão é: Ambas as perguntas não fazem o menor sentido.
Um sapo morreu tentando a atravessar a estrada.
Significados e conceitos somos nós mesmos que criamos… Homens e sapos, são ambas criaturas em um mesmo universo. Nada, em um plano superior (espiritual), está reservado para qualquer uma das duas espécies em especial.
A diferença é que nós temos o intelecto.